25 de agosto de 2017

Política da ilusão ou desilusão pública?


por Douglas Weege

O cenário não é dos melhores. Os atores não são os mais queridos. A plateia é a mais cética possível. Descrever a realidade política brasileira requer metáforas e ilustrações, o que pode não ser ideal, mas, ao menos, didático. O sentimento de decepção e desilusão dominam a esfera pública. A tentativa de encantar e iludir os decepcionados paira a alma dos governantes. Política da ilusão ou desilusão pública? Quem tem se fortalecido afinal?

A catástrofe política brasileira que os escândalos evocam provocam acentuada desconfiança de grande parte da população. O prejuízo disso? A falta de crédito para qualquer um que se propõe ser um político honesto, que busca trabalhar em prol do povo. Mas há, de fato, algum político honesto? A resposta a essa pergunta só é possível colocando-se outra, a saber: existe cidadão honesto?


Com pouca bagagem intelectual qualquer indivíduo reconhece que toda generalização é problemática. Já no campo do senso comum, a generalização talvez seja a grande tentação de cada um, pois é mais fácil categorizar todos de um dado grupo com uma palavra ao invés de encontrar uma palavra para cada membro deste grupo. O problema é que a coletividade se constitui a partir da pluralidade de pessoas. Pluralidade esta que remete todos nós ao universo múltiplo das opiniões.

No entanto, o debate político não pode se restringir ao campo da doxa (opinião, em grego), na medida em que só a razão é capaz de orientar o pluralismo de ideias a um consenso geral, que privilegia o interesse público e coloca a margem toda e qualquer vontade particular. Rousseau já nos orientou sobre isso há algum tempo.

Se é fato que na atualidade se degladiam política da ilusão e desilusão pública, é fato também que: quanto mais desilusão mais ilusão, isto é, quanto menos envolvimento o povo tem com a política, menos os políticos precisam se preocupar com as causas do povo. No fundo, a desilusão coletiva, quando predomina, dá margem para o uso indiscriminado da coisa pública e, quem sabe, até a justifica. Neste sentido, há uma cumplicidade marginal entre o político e o povo, que resulta na conclusão não pouco difundida por aí de que “fulano rouba, mas faz” ou, ainda, "ele é o menos pior". A questão é que se fulano faz roubando é ladrão e o menos pior está longe de ser bom.

O que está muito claro, com essa reflexão, é que o pessimismo que acaba se instalando em cada um de nós sobre o uso das instituições públicas em nada ajuda a mudar aquilo que se contesta e condena. O cético que aponta o dedo é o mesmo que abre as mãos para receber o que é ilícito e não lhe convém. Por isso, rejuvenescer a política é cada vez mais emergente e necessário. No entanto, para isso, faz-se necessária certa dose de otimismo para romper com a atual coletiva desilusão.

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