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27 de maio de 2015

Teologia econômica.


por Douglas Weege

Ao que se refere à oikonomia e o que denominamos teologia econômica? Em O Reino e a Glória Agamben indica que da teologia cristã surgiram dois paradigmas, a saber: a teologia política e a teologia econômica. Para ele, da teologia política “derivam a filosofia política e a teoria moderna da soberania” (2011, p. 13). Da teologia econômica “a biopolítica moderna até o atual triunfo da economia e do governo sobre qualquer outro aspecto da vida social” (Ibid.). Em entrevistas ele deixa claro que esta descoberta se deu através de seu estudo do debate entre Erik Peterson e Carl Schmitt, para quem “todos os conceitos decisivos da moderna doutrina do Estado são conceitos teológicos secularizados” (RUIZ, 2013). Através do estudo dos mesmos teólogos que Peterson se utiliza para encontrar a gênese da teologia política que anseia refutar, de Schmitt, percebeu um conceito do qual o teólogo protestante depois convertido ao catolicismo, não fez questão de abordar, isto é, a oikonomia. Agamben sente-se instigado, portanto, a fazer uma genealogia deste conceito, com intuito a compreender a governamentalidade contemporânea. Obviamente não há espaço aqui para apresentar minuciosamente tal genealogia, mas uma questão fundamental nos esclarece o motivo pelo qual o conceito é tão importante aos padres da igreja, tais como Justino, Inácio de Antioquia e Tertuliano:

“A exigência nasce no decurso do séc. II, quando se começa a formular aquilo que mais tarde, com os Concílios de Nicéia e de Constantinopla, se tornará o dogma trinitário. Os Padres que começam a elaborar a trindade tinham diante de si adversários, os assim chamados monarquianistas, que afirmavam que Deus era Uno e que, introduzindo outras duas figuras divinas, se corria o risco de recair no politeísmo. O problema consistia na maneira de conciliar a trindade, de que não se podia prescindir, com a monarquia, ou seja, o monoteísmo, igualmente indispensável. A oikonomía é o conceito, o instrumento, o órgão que torna possível tal concepção e tal passagem. O raciocínio é simples: Deus, quanto à sua essência e à sua natureza, é Uno; quanto à sua oikonomía, à gestão do seu oikos, da sua casa, da sua vida divina, pode por sua vez ter um filho e apresentar-se numa figura tríplice. O paradigma gerencial da oikonomía é precisamente o que torna possível a conciliação da trindade com o monoteísmo” [1].

8 de fevereiro de 2014

Qual o problema?


Sabe-se, majoritariamente, que o filósofo busca responder e/ou resolver os problemas de seu tempo. Seja no que diz respeito à natureza, a ética, a política, a lógica ou a religião todos os filósofos contribuem para resolver, aprofundar ou indicar um problema que requer indispensável atenção. Isso é evidente desde a antiguidade.

1 de novembro de 2013

A contemporaneidade e seu CULTO


“O capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez até a mais extremada que já existiu. Nele, todas as coisas só adquirem significado na relação imediata com o culto; ele não possui nenhuma dogmática, nenhuma teologia.” (BENJAMIN, 2013, p. 21). O culto, entendido como “um conjunto de ritos e práticas de veneração ou de propiciação de divindades, de ancestrais, de seres sobrenaturais ou de certos símbolos (JAPIASSÚ, 2006, p. 63)”, no que se refere à religião capitalista, parece ser evidenciado em símbolos e divindades. Se no cristianismo a cruz aparece como símbolo central da fé no Cristo ressurreto, no capitalismo as cédulas bancárias se apresentam diariamente para evocar o culto capitalista. Elas, mais do que qualquer outra coisa, mostram-se para a sociedade contemporânea como resolução das preocupações e inquietações humanas. Não por acaso, a elas presta-se a veneração. Mas “o papel-moeda é apenas uma das manifestações de uma divindade mais fundamental do sistema capitalista cultual: o dinheiro” (LÖWY, 2005). Sobre isso, Walter Benjamin deixa uma referência bastante interessante em seu fragmento de 1921 do pensador anarquista Gustav Landauer:

26 de outubro de 2013

O capitalismo como formação condicionada pela religião

Douglas Weege

Como é sabido, Max Weber (1864-1920) é um dos mais influentes pensadores na passagem do século XIX para o século XX. Talvez mais do que isso, pois segundo o jornalista da Folha de São Paulo João Batista Natali “o século que poderia ter sido o de Marx acabou se tornando o de Max” (1999). O motivo desta afirmação foi a eleição realizada por dez intelectuais convidados pela Folha para escolher os cem melhores livros de não ficção ou ensaios do século XX. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Weber, apareceu em primeiro lugar na lista dos intelectuais. Como se não bastasse, outra obra do autor, Economia e Sociedade, apareceu em terceiro lugar. Claro que pode haver críticas quanto aos dez intelectuais e a influência de suas escolhas por causa de suas áreas de atuação. Mesmo assim, não parece um absurdo este reconhecimento pela obra weberiana. Curiosidades a parte, cabe aqui explorar minimamente, mas não superficialmente, a obra líder do século XX, segundo o seleto grupo.

20 de setembro de 2013

Capitalismo, materialismo histórico e sociedade contemporânea I


Douglas Weege

A chave hermenêutica para compreender a sociedade ocidental é a obscura e sutil teologia econômica do capitalismo. Dito de outro modo, compreender o que é o capitalismo significa compreender, ao menos em boa parte, o mundo que habitamos. Compreender este mundo é indispensável para sabermos se é mesmo nele que queremos habitar. Portanto, é necessário reinterpretar o capitalismo para (re)conhecer o modo de vida humano na atualidade

6 de julho de 2013

Entre “O Mal Estar Na Civilização” e a “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”: uma relação possível entre Freud e Weber



Douglas Weege

Introdução
Olhando atentamente para o presente século e os problemas que o rodeiam é fácil notar a influência de dois grandes pensadores na atualidade. De maneira geral, no ambiente acadêmico contemporâneo, todos, de alguma maneira, já ouviram falar de Sigmund Freud (1856 – 1939) e Max Weber (1864 – 1920). Um é patrono da psicanálise, o outro da sociologia. Um tem como uma de suas principais obras “O Mal Estar Na Civilização”, o outro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. O que tais autores podem ter em comum? Quais as relações que podemos encontrar em suas obras? Que instigantes e intrigantes teses ambos vêm nos fazer pensar até os dias atuais? Qual a atualidade dos dois pensadores? Estas questões nos levam a mencionar o que vem a seguir.