10 de abril de 2015

Erudição Burra I


por Douglas Weege


O problema da intolerância é um problema de raciocínio lógico. Há erros lógicos simples, de fácil constatação. Mas existem outros um tanto sutis, que requer atenção. Diria que o problema referido não está localizado numa ou outra ponta, nessa ou naquela classificação, mas num espaço de difícil determinação. Veja, a reflexão aqui não refere-se aquele tipo de intolerância grosseira e cruel, de instantânea identificação, mas de um tipo bem específico de intolerância disfarçada, camuflada e maquiada com uma fala elegante, uma argumentação bem construída e certa defesa (até) eficiente de certa posição.  No entanto, não passa de um modo de pensar intolerante fundado numa erudição burra.


Esses erros lógicos ocorrem com todo tipo de assunto e com todo tipo de pessoas. Algumas afirmações que podem ser ouvidas no cotidiano denunciam isso: "político não presta, é corrupto"; "homossexual não se dá o respeito, é libertino"; "religioso/crente não pensa, é ignorante"; "grevista é vagabundo, não quer trabalhar"; "PT é petralha"; "PSDB é coxinha"; etc.

Note que as afirmações acima ilustram um erro costumeiro entre todos os tipos de pessoas. Letrados ou não. Pobres ou não. Nordestinos ou não. Petistas ou não. Esse erro corriqueiro é o da generalização. Este equívoco metodológico do pensamento humano pode ter como resultado à intolerância. As afirmações do parágrafo anterior são generalizações descabidas contra grupos de pessoas que tem determinada profissão, opção sexual, religião, posição política, etc. Entretanto, não encontram fundamento necessário na realidade para tal colocação. Ou não existem políticos sérios, homossexuais que se dão o respeito, religiosos que pensam criticamente, etc?

Ahhhh!!! (alguém pode dizer) muitos políticos foram presos por corrupção e outros estão sendo acusados. Ora, com isso, temos argumentos para deduzir, de maneira geral, que "todos" os políticos são corruptos? Claro que não!

Na Lógica, propriamente como disciplina filosófica, embora com um significado bem mais específico, chamamos isso de falácia. Falácia é um erro técnico que torna um argumento inválido, isto é, de "muitos" políticos corruptos não se pode deduzir que "todos" os políticos são corruptos. Mas vemos que é a tendência esse tipo de pensamento no dia a dia de cada um.

De modo mais preciso, essa falácia específica é denominada, na lógica, de "acidente inverso" ou "generalização apressada". Ou seja, "quando você forma uma regra geral ao examinar apenas poucos casos específicos que não são representativos de todas as causas possíveis. Por exemplo: "Jim Bakker foi um cristão insincero. Portanto todos os cristãos são insinceros"" [In: Lógicas & Falácias]. Alguém pode contestar dizendo: mas essa conclusão partiu de apenas um caso. Pois bem, poderíamos acrescer outros exemplos:

-Jim Bakker foi um cristão insincero. 
-Manuel Neyer foi um cristão insincero.
-Lionel Messi foi um cristão insincero.
-João foi um cristão insincero.
-Pedro foi...
-Paulo foi...
-Fulano...
-Ciclano...
-Portanto, todos os cristão são insinceros? Óbvio que não.

Mesmo que alguém conheça dez mil cristãos e todos eles forem insinceros não poderá afirmar que "todos" os cristão são insinceros. Ora, a exigência para tal conclusão ser concebida e sua argumentação válida é que se tenha a comprovação de que todos os cristãos sejam, de fato, insinceros. Como essa comprovação é impossível tanto para os cristãos, quanto para os políticos, homossexuais, grevistas e partidários, deste ou daquele partido, a conclusão só pode ser considerada descabida, sem fundamento e falaciosa. Mais do que isso, só pode ser tomada como um pré-julgamento injustificável, que não é outra coisa senão uma fala e discurso totalmente intolerante.

É preciso esclarecer que não quero, com isso, dizer que não há motivos para, por exemplo, diante da realidade de nosso contexto brasileiro, classificar uma boa e grande parte dos políticos como desonestos, mas apenas elucidar que afirmar algo sobre uma "boa e grande parte" é completamente diferente de afirmar algo sobre "todos". Como dizem, nesse tipo de dedução, corremos o risco de jogar o bebê fora junto com a água do banho. E esse erro com inúmeros grupos só manifesta uma intolerância sutil e covarde, que não se mostra como intolerância e preconceito, mas como certa verdade até inquestionável, claro que apenas para aquele que a afirma e outros que pensam como tal.

Ou somente eu testemunho gente desonesta falando da desonestidade de alguns políticos?

Ou somente eu testemunho religiosos e heterossexuais libertinos falarem da libertinagem de alguns homossexuais?

Ou somente eu testemunho homossexuais ignorantes falando da ignorância de alguns religiosos?

Ou somente eu testemunho petistas curiosamente falando da corrupção do PSDB?

Ou somente eu testemunho psdbistas curiosamente falando da corrupção do PT?

Ou somente eu testemunho intolerados intolerantes falando da intolerância dos que não o toleram?

Não. Claro que não sou somente eu.

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